quarta-feira, 24 de junho de 2009

Das ruas não vem só malandragem, vem cultura e arte

O projeto ''A Rua Dança a Cidade'', grupo londrinense de street dance, irá se apresentar no 27º Festival de Dança de Joinville, que acontece de 15 a 25 de julho com a coreografia ''Cotidiano''. Do Paraná, apenas 19 grupos irão se apresentar no evento, e de Londrina, o grupo é o único que tem participação garantida no Festival.

O projeto atende 256 alunos, de 7 a 22 anos, com aulas de street dance. O projeto é realizado em cinco pontos da cidade: Centro Cultural da Zona Norte, Guarda Mirim, Epesmel, Usina Cultural e Espaço Viva Vida, e o público alvo são na maioria jovens que vivem em situação de risco.

Os 15 talentos que irão para Joinville estão no nível intermediário e avançado do projeto. A seleção foi feita através da aprovação do vídeo do grupo e o professor de dança Édio Elias Gonçalves afirma: "É uma grande vitória e prova do caminho certo", destaca o responsável pelo projeto.

Édio Elias Gonçalves já tem mais de 30 anos de trabalho com a dança. Teve a idéia de montar o projeto com o objetivo principal de ajudar jovens a combater e superar o vício das drogas. Para participar do projeto, os alunos de dança tem que ter bom desempenho primeiramente na escola. As médias não podem ficar abaixo de 7 ou então não participam das aulas. Édio ensina arte mas exige que os jovens busquem mudar e melhorar a qualidade de vida.

Em 2008, o grupo venceu a competição na categoria amador do Festival de Dança de Ibiporã. É o resultado de resistência, flexibilidade, força, fôlego e muita expressividade que fazem parte da rotina dos exercícios diários dos alunos do projeto. Já participaram também de competições em Barra Bonita (SP) e Telêmaco Borba (PR).

Sônia Maria Gomes, 38 anos e moradora da Vila Brasil, pratica street dance há três anos. No início, conta que sentia muita dificuldade para realizar os movimentos, mas logo entrou em forma e hoje além de fazer street, também faz capoeira angola na Vila Cultural Brasil: "Eu quero fazer mais ainda e participar ensinando o que aprendi", afirma Sônia que esbanja agilidade.

A RUA DANÇA A CIDADE

"A Rua Dança a Cidade" é um dos projetos patrocinados pela Lei de Incentivo - PROMIC - e que reúne 256 crianças e adolescentes para dançar Street Dance – aqui no Brasil chamado Dança de Rua. O projeto é coordenado por Édio Elias Gonçalves, uma dessas pessoas que carregam em si o talento de arte-educador, educador como diria Rubem Alves.

As primeiras manifestações da dança de rua surgiram nos Estados Unidos, em 1929, época de grande crise econômica naquele país. Por causa da crise, muitos artísticas, entre músicos e dançarinos, perderam seus empregos nas casas noturnas da Broadway. Para sobreviver, passaram a apresentar nas ruas o Ragtime, o jazz e outros ritmos negros. Então, surgiram os primeiros tap dancers, ou sapadeadores, os primeiros dançarinos de rua. Com James Brown, um dos principais músicos que incorporaram a dança nos espetáculos, surge o Funk Music.

Assim, o Hip Hop nasceu no começo dos anos 1970 nas ruas do Bronx, bairro de Nova York, nos EUA. Foi criado inicialmente pelos breakers – dançarinos do Hip Hop - como um instrumento para resgatar jovens americanos excluídos que viviam em risco de ser envolvidos na roda viva da violência urbana.

Através dos tempos, o Street Dance criou sua própria cultura, cercado por um conjunto de ritmos e estilos de dança que se desenvolve conforme a realidade cultural dos praticantes. As coreografias passam a refletir o gestual do lugar onde habitam os praticantes do Street Dance, e assim se desenvolve mostrando formas inéditas. O corpo se transforma então em instrumento de comunicação e libertação.

Aqui em Londrina o grupo de Dança de Rua é o projeto da Rede Cidadania que mais tem se apresentado, mostrando seu talento por todos os lugares da cidade. Com isso se tornam conhecidos da população e cada vez mais são requisitados para shows e eventos culturais. O aplauso e o reconhecimento do público só faz aumentar o interesse dos dançarinos em participar do projeto.

No Festival de Música de Londrina, eles se apresentaram na ópera "A Noiva do Condutor" de Noel Rosa, ao lado de artistas de outras linguagens, compondo os personagens que dançavam na gafieira, incorporando o ritmo do samba. Junto com outro projeto da Rede Cidadania - "Baques e Batuques", arriscaram passos nos ritmos maranhenses e afro-brasileiros, mais uma das muitas formas da cultura popular brasileira.

E é sobre esse corpo comunicativo e transformador de realidades que as oficinas "A Rua Dança a Cidade" trafegam. Nelas, integrantes dançam a vida, adaptam novos passos e dançam os ritmos da esperança. Assim descobrem o prazer de trabalhar o corpo e conseqüentemente de como cuidar bem dele.

As coreografias inéditas e o corpo solto desenham a liberdade no ar e desafiam as leis da gravidade. Desafiam também os problemas comuns de garotos pobres que vivem na periferia de Londrina, criando novas oportunidades, novos amigos e corpo e espírito prontos para decidir o que fazer da própria vida.

Em Construção