domingo, 21 de outubro de 2012


O preguiçoso
Um homem preguiçoso vivia com a mulher muito trabalhadeira. A casa deles era de vara. A mulher, cansada de passar frio, teve que encher as paredes, sozinha: carregou todo o barro e fez o serviço, enquanto o marido permanecia o dia todo deitado no chão, palitando os dentes e pitando seu cigarro de palha.
Tudo o que a mulher mandava fazer, ele vinha com uma desculpa para não realizar o serviço. Um dia, ela disse:
— Marido, vai ao mato caçar uma paca gorda pra nós fazer um cozido gostoso.
E o preguiçoso vinha com a desculpa:
— Ô minha veia, você quer meu mal?! Pra eu armar uma arapuca, tenho que pegar no machado, ele bate no meu pé e, aí, é desgraceira na certa! No mato tem onça. Se a onça me pega, me come. É melhor ficar por aqui.
A mulher se azoretava e dizia:
— Então, marido, levanta daí e vai botar um roçado, que a chuva já tá pra chegar!
— Mulher, a chuva que Deus dá no roçado dá no mato também. Não precisa de tanta arribação! E a mulher, que já não aguentava mais, dizia:
— Miserável, marido, como você
            era melhor não ter.
            Cachorro há de te latir
            e cobra há de lhe morder.
            Tanta preguiça,
            só falta ser enterrado vivo,
            e é isso que eu vou fazer!

Ele achou boa a ideia, já que não precisaria mais se levantar nem para fazer as necessidades. Então a mulher chamou uns homens para sepultar o preguiçoso. Puseram-no na rede e tocaram o cortejo. Na estrada, um compadre dele vinha montado a cavalo e, vendo a rede, perguntou:
— Meu compadre morreu e ninguém me avisou?
— Morreu não, compadre, mas prefere ser enterrado vivo a ter que levantar uma palha do chão. Esse homem não trabalha nem pro seu sustento, e eu já não aguento mais!
O compadre, então, ofertou:
— Para não enterrar meu compadre, eu ofereço um saco de feijão, outro de arroz e um cacho de banana.
O preguiçoso, ouvindo a proposta, espichou o pescoço para fora da rede e perguntou:
— Ô compadre, me responda uma coisa: esse feijão é debulhado?
— Não.
— E esse arroz e esse cacho de banana vêm com casca ou sem casca?
— Com casca!
Então, para surpresa de todos, o preguiçoso completou:
— Prossiga o enterro!
Maria Magalhães Borges,
Serra do Ramalho, Bahia.

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