O preguiçoso
Um homem preguiçoso vivia com a mulher
muito trabalhadeira. A casa deles era de vara. A mulher, cansada de passar
frio, teve que encher as paredes, sozinha: carregou todo o barro e fez o
serviço, enquanto o marido permanecia o dia todo deitado no chão, palitando os
dentes e pitando seu cigarro de palha.
Tudo o que a mulher mandava fazer, ele
vinha com uma desculpa para não realizar o serviço. Um dia, ela disse:
— Marido, vai ao mato caçar uma paca
gorda pra nós fazer um cozido gostoso.
E
o preguiçoso vinha com a desculpa:
— Ô minha veia, você quer meu mal?!
Pra eu armar uma arapuca, tenho que pegar no machado, ele bate no meu pé e, aí,
é desgraceira na certa! No mato tem onça. Se a onça me pega, me come. É melhor
ficar por aqui.
A mulher se azoretava e dizia:
— Então, marido, levanta daí e vai
botar um roçado, que a chuva já tá pra chegar!
— Mulher, a chuva que Deus dá no
roçado dá no mato também. Não precisa de tanta arribação! E a mulher, que já
não aguentava mais, dizia:
— Miserável, marido, como você
era melhor não ter.
Cachorro há de te latir
e cobra há de lhe morder.
Tanta
preguiça,
só falta ser enterrado vivo,
e é isso que eu vou fazer!
Ele achou boa a ideia, já que não
precisaria mais se levantar nem para fazer as necessidades. Então a mulher
chamou uns homens para sepultar o preguiçoso. Puseram-no na rede e tocaram o
cortejo. Na estrada, um compadre dele vinha montado a cavalo e, vendo a rede,
perguntou:
— Meu compadre morreu e ninguém me
avisou?
— Morreu não, compadre, mas prefere
ser enterrado vivo a ter que levantar uma palha do chão. Esse homem não
trabalha nem pro seu sustento, e eu já não aguento mais!
O
compadre, então, ofertou:
— Para não enterrar meu compadre, eu
ofereço um saco de feijão, outro de arroz e um cacho de banana.
O preguiçoso, ouvindo a proposta,
espichou o pescoço para fora da rede e perguntou:
— Ô compadre, me responda uma coisa:
esse feijão é debulhado?
— Não.
— E esse arroz e esse cacho de banana
vêm com casca ou sem casca?
— Com casca!
Então, para surpresa de todos, o
preguiçoso completou:
— Prossiga o enterro!
Maria
Magalhães Borges,
Serra do
Ramalho, Bahia.
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